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Política & Sociedade

Há ou Não um "Europeu Negro"?

Paulo Muhongo · 11 min de leitura
O paradoxo da pertença: a identidade sob o constante escrutínio e fragmentação social.
O paradoxo da pertença: a identidade sob o constante escrutínio e fragmentação social.

O que significa ser europeu? Nascer num país do continente, possuir a sua nacionalidade, falar a sua língua, estudar nas suas escolas e participar na sua vida económica e cultural deveria ser suficiente para que alguém fosse reconhecido como parte integrante da sociedade. No entanto, para muitos cidadãos negros, a pertença europeia continua a ser acompanhada por perguntas, suspeitas e experiências de discriminação que raramente são colocadas à maioria.

A questão não é saber se existem europeus negros. Existem, e fazem parte da história, da cultura, da economia e da vida política do continente. A questão mais profunda é outra: será que a Europa reconhece plenamente como seus todos aqueles a quem atribui, juridicamente, a condição de cidadãos?

A resposta exige distinguir duas realidades. A primeira é a cidadania, definida pelas leis de cada Estado. A segunda é a pertença social, construída através do reconhecimento, da participação e da possibilidade de viver sem que a origem familiar ou a cor da pele sejam constantemente utilizadas para questionar a legitimidade de alguém.

É nesta distância entre o direito e a experiência quotidiana que reside uma das contradições das sociedades europeias contemporâneas.

A pertença sob suspeita

Imaginemos uma pessoa negra nascida em França, com pais franceses, que estudou nas escolas francesas, fala francês como primeira língua e cuja vida inteira decorreu naquele país. Do ponto de vista jurídico, a sua nacionalidade depende das regras aplicáveis e da sua situação concreta. Do ponto de vista cultural e social, porém, essa pessoa pode ser tão francesa como qualquer outro cidadão.

Ainda assim, perguntas como «De onde és?» ou, sobretudo, «Mas de onde és realmente?» podem transmitir uma mensagem subtil: a de que a aparência física constitui um indício de estrangeirismo, mesmo quando todos os elementos da vida de alguém apontam para uma pertença consolidada.

Uma pergunta isolada não constitui necessariamente um ato racista. O seu significado depende do contexto, da intenção e da repetição. O problema surge quando pessoas negras são sistematicamente tratadas como estrangeiras, mesmo quando nasceram no país, ou quando a sua identidade nacional parece precisar de uma justificação adicional.

A cidadania pode estar inscrita num documento. O reconhecimento social, porém, não se obtém automaticamente através de um passaporte.

Esta contradição não é exclusiva da Europa. Também se manifesta nos Estados Unidos e noutras sociedades marcadas por histórias de escravatura, colonialismo, migrações e hierarquias raciais. No contexto europeu, assume particular importância porque coloca em confronto os princípios universais de igualdade e as práticas sociais que ainda condicionam o reconhecimento de determinadas minorias.

O mérito também pode ser posto em causa

Em setembro de 2026, o escritor canadiano de origem haitiana Thélyson Orélien tornou-se protagonista de uma polémica literária em França. O seu romance C'était ça ou mourir, inicialmente recebido com grande atenção, foi acusado nas redes sociais de ter sido produzido com recurso substancial à inteligência artificial. O autor rejeitou as acusações de utilização de IA na escrita do romance e afirmou ter sido alvo de ataques racistas. A controvérsia ganhou dimensão pública e contribuiu para o afastamento da obra da seleção do Prémio Goncourt.

Posteriormente, em outubro, Orélien reconheceu episódios anteriores de plágio, pelos quais apresentou desculpas, mantendo a sua contestação das acusações relativas à utilização de inteligência artificial no romance. Estes elementos são importantes para compreender a complexidade do caso: não é rigoroso apresentar todas as acusações como infundadas nem transformar a controvérsia, por si só, numa prova de racismo. <Cite refs={["turn194331search2","turn194331news30"]}/>

Ainda assim, o episódio suscita uma questão legítima: como se formam as suspeitas públicas em torno de um autor e de que maneira a sua origem, identidade ou posição social influenciam a receção do seu trabalho?

Uma acusação deve ser examinada com base em provas, independentemente da identidade de quem a recebe. Contudo, a possibilidade de um tratamento desigual merece investigação sempre que existam indícios de que critérios semelhantes são aplicados de forma diferente a pessoas de origens distintas.

O princípio deve ser simples: o mérito não deve ser presumido nem negado em função da cor da pele. Deve ser avaliado através de critérios transparentes, consistentes e aplicáveis a todos.

A luta contra o racismo não exige que se dispense o escrutínio crítico. Exige que esse escrutínio seja justo.

Quando a igualdade encontra a força policial

A relação entre as minorias raciais e as forças de segurança constitui outro domínio em que a distância entre os princípios legais e as experiências individuais merece atenção.

Em França, casos como os de Théo Luhaka, agredido por agentes policiais em 2017, e Michel Zecler, produtor musical negro agredido por polícias em Paris em 2020, provocaram forte debate público sobre a violência policial, a responsabilização das autoridades e a discriminação racial.

Estes episódios não permitem concluir que todas as abordagens policiais são motivadas pelo racismo. Demonstram, contudo, a importância de investigar alegações de abuso, assegurar mecanismos de fiscalização independentes e garantir que a força pública atua dentro dos limites legais.

A questão central não é opor cidadãos negros e polícias como grupos homogéneos. É determinar se todas as pessoas recebem proteção e tratamento equivalentes e se as instituições conseguem identificar, prevenir e corrigir práticas discriminatórias.

O conceito de racial profiling, ou definição de perfis raciais, refere-se à utilização da origem racial ou étnica, da cor da pele ou de características associadas como fundamento determinante de suspeita policial, em vez de critérios objetivos e individualizados.

Quando a aparência se transforma num substituto da suspeita fundamentada, a confiança nas instituições fica comprometida. E quando uma pessoa sente que é abordada não pelo que fez, mas por aquilo que aparenta ser, a promessa de igualdade perante a lei perde credibilidade.

Uma democracia não se mede apenas pela existência de leis que proíbem a discriminação. Mede-se também pela capacidade de garantir que essas leis são respeitadas na prática.

O que revelam os dados europeus?

Os dados disponíveis permitem avaliar a dimensão do problema para além dos testemunhos individuais.

O relatório Being Black in the EU, publicado em 2023 pela Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA), analisou as experiências de quase 6 800 pessoas de ascendência africana em 13 Estados-Membros. Os resultados revelam níveis significativos de discriminação racial e problemas persistentes nas relações com as instituições. <Cite refs={["turn696948search0","turn696948search1"]}/>

Entre as principais conclusões, destacam-se:

  • Discriminação racial: 45% dos participantes afirmaram ter sofrido discriminação racial nos cinco anos anteriores ao inquérito, contra 39% no estudo anterior de 2016.

  • Abordagens policiais: entre os participantes que tinham sido interpelados pela polícia no ano anterior, 58% consideraram que a abordagem mais recente tinha sido motivada por perfil racial.

  • Dificuldades de denúncia: apenas 9% dos participantes que sofreram discriminação denunciaram a situação no período de referência utilizado pelo estudo.

  • Emprego e habitação: a discriminação foi também identificada como um obstáculo relevante no acesso ao trabalho e ao alojamento. <Cite refs={["turn696948search0","turn696948search1"]}/>

Estes resultados devem ser interpretados com rigor. O inquérito não representa automaticamente todas as pessoas negras residentes na União Europeia, nem demonstra que todas as experiências de discriminação tenham a mesma origem. Retrata, porém, as experiências relatadas por uma amostra de pessoas de ascendência africana em países abrangidos pelo estudo.

A sua relevância reside precisamente em mostrar que a discriminação não pode ser reduzida a uma sucessão de incidentes isolados sem relação entre si. Quando experiências semelhantes surgem em diferentes países e em áreas tão importantes como o emprego, a habitação e o contacto com a polícia, torna-se necessário analisar os mecanismos sociais e institucionais que as podem favorecer.

A existência de legislação antidiscriminatória é indispensável. Mas a eficácia dessa legislação depende igualmente da fiscalização, do acesso à justiça, da recolha de dados e da confiança das vítimas nos mecanismos de denúncia.

Portugal: a igualdade também precisa de ser examinada

Portugal não está à margem deste debate.

Durante muito tempo, a imagem de um país marcado pela convivência entre povos e culturas foi utilizada para sustentar uma narrativa de tolerância racial. A história das relações entre Portugal, África e outros territórios pode ajudar a explicar a formação dessa imagem, mas não basta para demonstrar a inexistência de discriminação na sociedade contemporânea.

Uma história de contactos interculturais não elimina automaticamente as desigualdades. Da mesma forma, reconhecer a existência de racismo não significa negar os progressos legais ou as experiências positivas de convivência entre diferentes comunidades.

O sexto relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI), publicado em 2025, voltou a assinalar preocupações relacionadas com alegações de abusos racistas e de definição de perfis raciais por agentes policiais em Portugal. O relatório apresenta recomendações destinadas a reforçar os mecanismos de prevenção, fiscalização e combate ao racismo e à intolerância. <Cite refs={["turn696948search4"]}/>

Este diagnóstico deve ser levado a sério, sem ser transformado numa condenação indiscriminada das instituições ou da população portuguesa. O objetivo de uma avaliação independente é precisamente identificar problemas concretos e indicar medidas para os corrigir.

Também é necessário examinar as condições de acesso ao emprego, à habitação, à educação e à progressão profissional. Para isso, são essenciais dados oficiais claramente definidos, com indicadores comparáveis e informação suficiente para distinguir as experiências das diferentes populações.

A recolha estatística, por si só, não resolve as desigualdades. Torna, contudo, mais difícil ignorá-las e permite avaliar se as políticas públicas estão a produzir resultados.

Uma sociedade comprometida com a igualdade não deve recear a investigação das suas próprias contradições.

O que significa, afinal, ser europeu?

A pergunta do título contém uma ironia: por que razão a existência de um europeu negro continua a ser discutida como se constituísse um paradoxo?

A identidade europeia nunca foi uma realidade imóvel. As sociedades do continente foram moldadas por migrações, conflitos, intercâmbios culturais e transformações políticas. As identidades nacionais também se alteraram ao longo do tempo, acompanhando mudanças nas leis, nas fronteiras e nas próprias conceções de cidadania.

Não existe, por isso, uma única aparência física que determine quem pode ser considerado europeu. A cor da pele não define, por si só, a nacionalidade, a cultura, a língua ou o grau de pertença de uma pessoa.

Um cidadão negro nascido em Lisboa não precisa de demonstrar uma ligação adicional a Portugal para que a sua experiência portuguesa seja legítima. Um cidadão negro nascido em Paris não deve ser tratado como menos francês por ter ascendência africana. E um cidadão negro nascido em Berlim não deixa de fazer parte da sociedade alemã por não corresponder a uma imagem tradicional da identidade nacional.

Isto não significa que as identidades sejam simples ou que a origem familiar deixe de ter importância. Uma pessoa pode ser portuguesa e angolana, francesa e congolesa, alemã e ganesa, ou reconhecer-se em várias heranças culturais ao mesmo tempo. Estas identidades não precisam de se excluir mutuamente.

A questão decisiva é saber se cada pessoa pode definir a sua relação com essas heranças sem que a sociedade lhe imponha uma identidade baseada exclusivamente na aparência.

Conclusão: a pertença não deve depender da cor da pele

A existência de europeus negros não é uma hipótese teórica. É uma realidade humana, histórica e contemporânea.

O verdadeiro desafio está em garantir que a cidadania formal se traduza em igualdade efetiva, que o mérito seja avaliado com critérios justos, que as forças de segurança atuem de forma proporcional e responsável e que a discriminação possa ser denunciada sem receio ou descrença nas instituições.

Não basta afirmar que todos são iguais perante a lei se determinados cidadãos continuam a sentir que precisam de provar repetidamente que pertencem ao lugar onde vivem. Também não basta atribuir toda a desigualdade a uma única causa: é necessário investigar os contextos, confrontar os dados e identificar os mecanismos concretos que produzem resultados injustos.

A resposta à pergunta do título é, portanto, clara: sim, existe um europeu negro. A sua identidade não é menos europeia por causa da cor da sua pele, nem depende da aprovação de uma maioria.

O que continua em discussão não é a legitimidade da sua existência, mas a capacidade das sociedades europeias de reconhecer plenamente uma realidade que já faz parte delas.

A Europa não precisa de decidir se os seus cidadãos negros são suficientemente europeus. Precisa de garantir que a sua cidadania, dignidade e liberdade não são condicionadas pela cor da pele.

Porque pertencer a uma sociedade não deveria ser um privilégio concedido pelo olhar dos outros. Deveria ser uma realidade protegida pelos direitos, reconhecida nas instituições e respeitada na vida quotidiana.

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Paulo Muhongo
Sobre o autor

Paulo Muhongo é poeta, crítico literário e analista político, em Lisboa. Escreve sobre África, poder e a palavra escrita.

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