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Lisboa Paulo Muhongo
Literatura

Doenças da Alma: Sintomas de uma Aldeia Recôndita

Francisco Teresa · 3 min de leitura
Doenças da Alma: Sintomas de uma Aldeia Recôndita

No canto do quarto, o candeeiro piscava ao mesmo ritmo incerto dos pensamentos de Nsunzi. Ela olhava para as próprias mãos e estranhava-as, como se fossem a miniatura do que um dia tinham sido, mãos de bebé recém-nascido. A lapiseira parecia maior do que os dedos, e a mente, lenta, já não encontrava o fio de um pensamento. A depressão tinha essa habilidade subtil e cruel: não destruía as coisas de uma vez, desregulava a frequência de tudo à volta. Quanto mais a doença lhe batia à porta, mais Nsunzi se encolhia no seu canto, mais pequenos se tornavam os seus pensamentos, mais longe ficava das pessoas.

Naquela aldeia não havia psicólogos, nem médicos, nem posto de saúde. Nsunzi era a primeira a quem acontecia uma coisa assim, e a explicação encontrada foi a de sempre: feitiço, um ataque de bruxos contra a família. Os pais, camponeses que nunca tinham aprendido a ler, não tinham palavras para aquilo. Chamaram curandeiros e pastores, que ali não faltavam. Os pastores conheciam Deus, mas nada sabiam das doenças da alma que a medicina aprendera a tratar. Nsunzi estava na idade de ter amigas e de ir para a lavra, mas passava os dias trancada no quarto escuro, sem janela, da casa de pau a pique. Mal comia. A doença ia consumindo uma menina numa terra demasiado longe de qualquer hospital.

Durante meses, o sono foi substituído por uma vigília pesada, em que o silêncio da noite parecia gritar todas as incertezas do futuro. Os pais já não sabiam o que fazer pela única filha. Tinham tentado tudo: pastores, curandeiros, banhos, rezas, mezinhas. Nada resultou. E, para Nsunzi, o amanhã deixara de ter esperança.


A vida, os projetos, os desejos e as conversas tinham sido adiados para um momento incerto que nunca chegava. Mas o mais doloroso daquela desconexão não era o cansaço do corpo; era o abismo que se abrira dentro de casa.

Naquela tarde, o pequeno Quipuco aproximou-se devagar com um desenho nas mãos. Estendeu o papel, mas Nsunzi mal conseguiu erguer os olhos. Não por falta de amor, mas porque a névoa era densa demais para ser atravessada. O menino recolheu o braço, deu dois passos atrás e voltou em silêncio para a sala, onde estavam os parentes e os amigos da família. Aquele gesto mínimo doeu-lhe mais do que todas as noites sem sono. No olhar confuso do irmão, Nsunzi percebeu que a ponte entre os dois estava a ruir, não pela distância, mas porque as suas frequências já não se tocavam.


Nessa mesma noite, quando a porta da casa rangeu, um barulho estranho veio do caminho da mata. O destino daquela família estava prestes a cruzar-se com algo que a aldeia nunca imaginara existir…
(continua)

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