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Lisboa Paulo Muhongo
Poesia

Mulher africana, nos trilhos de Lisboa

Paulo Muhongo · Poema
Tu, exilada do ventre da tua terra, como tantas Marias de África, vives agora em chão estrangeiro, com um filho ao colo e o mundo inteiro sobre os ombros.
Do suor que teima em cair da tua testa nascem os frutos que alimentam o teu menino. É por ele que madrugas, é por ele que corres, de carrinha em carrinha, de táxi partilhado a metro apinhado, como se o tempo fosse sempre escasso e os sonhos, uma urgência calada.
Lisboa ri nos arraiais de Junho, mas tu danças outra música — a da sobrevivência. Entre cheiros a sardinha e manjerico, tu carregas o peso do silêncio, da ausência, da esperança. Quando hás de parar? Quando hás de respirar fundo, olhar o céu e dizer: também mereço a alegria? Pois mesmo sendo Eva, és filha do Criador. E tens direito ao descanso, ao riso, à luz.
Que seja eu esse Adão que saiba dar-te descanso. Que seja eu a brisa que acalma a tua alma fadigada pela brutalidade da vida. Que em mim encontres o amparo e o abrigo que sempre procuraste em tantos Adões, mas que em cada entrega, só o sabor amargo colheste.
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Paulo Muhongo
Sobre o autor

Paulo Muhongo é poeta, crítico literário e analista político, em Lisboa. Escreve sobre África, poder e a palavra escrita.

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