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Lisboa Paulo Muhongo
Filosofia

Porque insistimos em correr para a frente quando o universo gira em ciclos?

Paulo Muhongo3 min de leitura
Porque insistimos em correr para a frente quando o universo gira em ciclos?

Os campos são cultivados em linhas retas. Também os homens desenham as suas vidas em linhas retas. Desde cedo aprendemos que existe um ponto de partida e um ponto de chegada, uma meta distante que devemos alcançar. Crescemos convencidos de que a vida é um percurso contínuo para a frente, uma estrada que nunca olha para trás.

Mal aprendemos a andar ou a falar, a linha reta já nos foi apresentada. Dizem-nos onde devemos chegar, o que devemos ser, aquilo que devemos conquistar. E, como cavalos que seguem apenas a direção que lhes foi traçada, avançamos em frente, muitas vezes sem questionar se o destino perseguido é verdadeiramente nosso ou apenas uma herança das expectativas da sociedade.

Tal como na velha história da cenoura colocada à frente do animal, atravessamos dificuldades, suportamos sacrifícios e enfrentamos obstáculos na esperança de alcançar, um dia, a felicidade prometida. Estudamos para obter um diploma, trabalhamos para conquistar estabilidade, lutamos para adquirir bens, reconhecimento ou sucesso. Acreditamos que, ao chegar à meta, encontraremos finalmente a plenitude.

Mas quando a meta é alcançada, a alegria dura apenas alguns instantes. Logo surge um novo desejo, uma nova ambição, uma nova necessidade. E voltamos a correr. Talvez o único ciclo que conhecemos seja precisamente esse: o da satisfação breve e o da insatisfação constante.

No entanto, por vivermos apenas em linha reta, deixamos demasiadas coisas para trás. Não regressamos às feridas antigas. Não revisitamos as dores que ficaram por curar. Queremos avançar a qualquer custo, completos ou incompletos, inteiros ou fragmentados.

Mas o universo parece ensinar outra lição.

Nada na natureza avança apenas em linha reta. As estações regressam. O dia entrega-se à noite e a noite devolve-se ao dia. As marés avançam e recuam. Os planetas giram. A própria vida nasce, transforma-se e renova-se em ciclos incessantes.

Foi através de repetições infinitas que o caos deu lugar à ordem. Foi através de movimentos cíclicos que o universo encontrou equilíbrio. A criação não nasceu de uma corrida desenfreada para a frente, mas da repetição paciente dos mesmos processos até surgir a harmonia.

Talvez esteja aí uma das grandes sabedorias que esquecemos.

Talvez devêssemos deixar de temer os regressos. Voltar aos mesmos caminhos não significa fracassar. Rever os mesmos erros não significa estagnar. Por vezes, regressamos precisamente para compreender aquilo que não fomos capazes de entender da primeira vez.

Porque toda a evolução tem raízes. Toda a transformação assenta numa base anterior. E nada cresce verdadeiramente sem revisitar aquilo que o sustenta.

Talvez a vida não seja uma linha reta nem um círculo perfeito.

Talvez seja uma espiral.

Um movimento que nos faz regressar aos mesmos lugares, mas nunca da mesma forma. Voltamos às mesmas perguntas, aos mesmos sonhos, às mesmas dores, mas cada vez com mais experiência, mais consciência e mais humanidade.

E talvez seja nesse equilíbrio entre avançar e regressar que reside o verdadeiro sentido da existência. Não em fugir constantemente para a frente, mas em aprender a transformar cada ciclo numa oportunidade de crescimento.

Porque, no fundo, viver não é apenas chegar. É também saber voltar.

Leia a seguir · Literatura Somos feitos das histórias que ninguém pode contar por nós Uma reflexão sobre a vida, a memória e a identidade, a partir de um comentário deixado num vídeo de Slava Polunin.
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Paulo Muhongo
Sobre o autor

Paulo Muhongo é poeta, crítico literário e analista político, em Lisboa. Escreve sobre África, poder e a palavra escrita.

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